sexta-feira, 20 de março de 2015

Da Série João Pé-de-mamão III

as vezes respondo que não, não acredito em deus, não tenho religião alguma, não, não tenho, sim, sim, é possível não ter, existem pessoas legais sem religião sim, deus nunca me foi apresentado com cumprimento de mão nem nada, domingos eu durmo até meio-dia, e se insistirem muito nisso até sou capaz de inventar um nome esdruxulo com rituais engraçados, enfim, mas no mais recente papo com os pequenos sobre isso, disse que o meu deus pedia pra esquecer dele, e se lembrasse, era pra desenhá-lo bem parecido com a primeira pessoa, planta ou bicho que pusesse os olhos. enfim.
                                   

um dente extraído, e uma pessoa querida que anuncia a partida. as dores competem.
e ele, 6 anos, me traz seu coringa da sorte: "fica contigo até parar de sangrar!"
ele ainda não sabe que a cicatrização da saudade é mais lenta 
que a de um dente.
                                                     
"eu quero que tu viva infinitos anos, Má!"
este desejo me basta por hora. se saber amada por uma criança é a melhor forma de resignificar a vida.
Tardes pulando amarelinha, brincando de ficar invisível, alimentando os bois, imitando os passarinhos, tomando banho de chuva, pintando o rosto com barro, confeccionando binóculos, lendo gibis, andando de balanço, adivinhando as bandeiras dos países pelas cores, cantando, aprendendo palavras em alemão, subindo na carroça, descobrindo esconderijos debaixo das palmeiras, brincando com a lanterna no arvoredo. Férias com meu recém-conhecido irmãozinho, passaporte para as nuvens. E me percebo num reencontro com os lugares que fizeram parte do cenário de minha velha infância. O medo dos chifres do boi cai com a chuva na calha e forma o barro no qual pisamos e pintamos os rostos.
"eu também quero que tu viva infinitos anos."
(da série: Aventuras com meu recém-conhecido Irmãozinho)


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